LENDAS

&

MITOS

 

 

 

REGIÃO NORTE

 

 

 

 

ORIGEM DO SOL; DIABINHO DA GARRAFA; CUCA ; BICHO-PAPÃO ;MATINA PERÊRA ;COBRA -HONORATO O BOTO ;MUIRAQUITÃ; ORIGEM DO PIRARUCU ; VITÓRIA-RÉGIA; SACI PERERÊ; BOITATÁ ; MAPINGUARI ;ORIGEM DO PEIXE- BOI ; CAPELOBO ; CAIPORA E CURUPIRA ; MULA -SEM- CABEÇA ;ONÇA MANETA; ONÇA-BOI ; ORIGEM DA LUA; IARA; ORIGEM DO GUARANÁ ;LOBISOMEM; ORIGEM DA MANDIOCA;

 

 

E MAIS :

 

Amao
Andorinha
Aru
Baíra
Bicho do Mato
Bicho Visagento
Boiúna
Bolaro
Caapora / Caipora
Caamanha / Mãe-do-Mato
Caruanas
Caruara / Caroara
Cavalo-Marinho
Cobra-Grande
Cobra-Maria
Companheiro do Fundo Cumacanga
Iapinari
Juriti-Pepena
Jurupari
Macunaima
Mãe-da-Lua
Mãe-da-Peste
Mãe-da-Seringueira
Mãe-do-Fogo
Mãe-do-Mato
Mapinguari
Matinta pereira
Matuiú
Motucu
Onça Pé de Boi
Visagem

 

 


 

 

 

Saci-Pererê

 


 

Uma das figuras mitológicas mais populares parece ser o Saci-Pererê. Inúmeros escritores já o colocaram em seus livros. Mas as características frequentes variam. Começa a fazer suas aparições nas histórias de fins do século XVIII e a partir daí fixa-se no mundo fantástico da cultura popular. O Saci-Pereê é um negrinho de uma perna só, ágil, astuto e atrevido, gosta de fumar cachimbo e usa uma carapuça vermelha (que dá o poder de se tornar invisível). Pertuba a vida doméstica, apagando o fogo e queimando os alimentos, escondendo objetos na hora em que mais se precisa deles, trança os rabos e crinas de cavalo, mas nunca faz maldades. Espanta também os animais. Assusta os viajantes, pedindo fumo. Aparece e desaparece no meio de um currupio de vento. Para se apanhar o saci, pede-se usar um rosário, uma peneira ou dar três nós num pedaço de palha. É constante no folclore do Sul, principalmente nas regiões povoadas pelo índio tupi-guarani, de cujo idioma nasce o nome. Em várias localidades paulistas contam histórias do Saci-Pererê. Não é maldoso, porém brincalhão como toda criança.

 

As Amazonas

 


Em 1542, Frei Gaspar de Carvajal, escrivão da frota espanhola de Francisco Orellana, ao penetrar num enorme rio brasileiro, que ele chamou de "Mar Dulce", encontrou mulheres guerreiras, tendo sido por elas atacado. O medo foi tanto que o frade escriba, ao vê-las jovens, belicosas, nuas, chegou a afirmar que queimavam um dos seios para melhor manejar o arco e a flecha. Confundiu-as com o mito grego das Amazonas. E o grande rio foi batizado como: - o rio das Amazonas, rio Amazonas.

 

Contam que no Reino das Pedras Verdes somente vivem mulheres - as Amazonas. Trabalham muito. Caçam, pescam. Fazem cerâmica. Redes, tecido, enfeitados de penas. Trabalham na roça. Fazem armas. É uma comunidade onde todos possuem tudo em comum. A direção está nas mãos de uma das Amazonas, que exerce também função religiosa, dirigindo as festas. Seu reinado é curto, somente as virgens de vinte a vinte e cinco anos podem disputar a chefia das Amazonas.

 

A cada cinco luas cheias, no mês de abril (cinco anos), há renovação do comando das Amazonas. As Amazonas fazem um amuleto famoso - o muiraquitã. É uma raridade, os próprios índios afirmam que não sabem como fabricá-lo. Dizem que o muiraquitã vem de um lugar muito distante, da terra das mulheres sem marido, do país das mulheres guerreiras ...

 

Em um lago enorme - jaci-uaruá, no mês de abril de todos os anos, quando a lua cheia aparece, as Amazonas mergulham no lago e do fundo trazem um punhado de barro. Com este barro limoso modelam figuras: peixes, rãs, tartarugas. O mais comum é a rã, símbolo de fertilidade. O amuleto é perfurado para ser usado no pescoço.

 

O barro tem que ser modelado depressa, ainda debaixo da água, porque o luar faz endurecer o limo verde. Nesta mesma noite elas recebem a visita dos homens de uma tribo vizinha. É a noite nupcial. Só os índios que já lhe deram uma filha recebem o muiraquitã. Os que lhes deram um filho terão que levar o menino para a sua aldeia porque entre as Amazonas só vivem mulheres. Os índios contam assim.

 

A Bruxa

 


A Bruxa para as crianças é a figura clássica da mulher velha, alta e magra, corcunda, queixo fino, nariz pontudo, olhos pequenos e misteriosos, cheia de sinais nos cabelos, e manchas na pele.

 

O principal trabalho das Bruxas é carregar meninos que teimam em não dormir cedo, ou em alguns casos, mantendo os vestígios do mito de origem Européia, sugar seu sangue sem que ninguém a veja, já que é capaz de se tornar invísivel. No Norte do país, ela é conhecida como Feiticeira.

 

Para evitar que a Bruxa entre numa casa, deve-se riscar nas portas os símbolos cabalísticos; o sinal de Salomão, que é uma estrela de seis pontas, feita com dois triângulos; a estrela de cinco pontas, que é o sagrado pentágono; ou as palhas secas do Domingo de Ramos postas em forma de cruz, ou novelos de fios da fibra de Caroá, planta usada para fazer barbantes, linhas de pesca e tecidos.

 

A Bruxa então é obrigada a parar, e só entrará naquela casa, após contar fio por fio, daquele feixe de fibras de Caroá ou Gravatá.

 

A tradição é a mesma na Europa. Em Portugal é um molho de fios. Na Itália mata-se um cachorro e a Bruxa é obrigada a contar os fios de cabelos do animal. Com uma foice molhada na água benta ou outra lâmina, como uma faca, de forma compassada, de meia-noite ao primeiro cantar do galo, deve-se ferir o ar em volta do berço onde dorme a criança que está sendo sugada pela Bruxa.

 

Ao fazer isso, um golpe pode acertar a Bruxa e assim ela perde o encanto, isso quebra suas forças, e ela retoma sua forma humana e fraca. Em outros estados, Minas Gerais, estado do Rio de Janeiro, Goiás, a Bruxa se transforma em borboleta noturna, uma espécie amarelada que aparece quando o sol se põe.

 

Diz-se que a Bruxa é a sétima filha. Sempre aparece em torno do número Sete, que tem um forte apelo místico desde o tempo dos magos Caldeus.

 

Nomes comuns:

 

A Bruxa, a Feiticeira, Súcubo, Sucubus, Velha Bruxa.

 


Origem Provável: É de origem Européia, muito antiga, e os elementos que nos chegam vieram de Portugal. Na Europa, as Bruxas se reunem nas noites de sexta-feira, sendo presididas pelo Diabo em pessoa, e todas que estão no grupo, deverão se despir. Estas Bruxas voam sentadas em cabos de vassouras. De acordo com a tradição Brasileira, ela, a Bruxa, algumas vezes se apresenta como uma velha carregando uma pequena trouxa de roupa, e quando vê uma criança, logo lança sobre a mesma mau olhado.

 

Quando uma Mulher já teve seis filhas, partos sequenciais, antes de nascer uma sétima, para livrar-se da maldição de virar Bruxa, deve a mãe colocar nela nome masculino. Caso não faça isso, e se nasce menina, ao completar sete anos se transforma em borboleta, entra pelas fechaduras das portas para chupar o umbigo das crianças recém nascidas. E assim, logo a criança adoece de um mal chamado de "Mal de sete dias", que é muito grave, mortal. Para livrar as crianças desse mal, a parteira deve colocar embaixo da cama da mulher que deu à luz, uma tesoura aberta, milenar símbolo de proteção.

 

O Sol e a Lua

 


O sol era um belo rapaz, muito forte e inteligente. A lua era uma índiazinha bonita e delicada. Conheceram-se numa festa da tribo, uma grande festa iluminada por fogueiras e vaga-lumes. O Sol viu a Lua e ficou apaixonado por ela. A Lua viu o Sol e também ficou apaixonada por ele. E começaram a namorar.

 

Só que a Lua era muito orgulhosa e gostava de ser importante. Não era a qualquer festa que ela ia, não. Nem a qualquer passeio. O Sol era mais camarada e aceitava qualquer convite. Assim, enquanto a Lua ficava geralmente fechada na oca, o Sol andava por tudo quanto era lugar, divertindo-se a valer. Caçava, pescava, nadava.

 

A Lua não andava nada contente com este jeito de viver. Queria que ele fosse mais preocupado, que selecionasse melhor suas amizades. Era, porém, orgulhosa e nada dizia. O Sol notava que ela não estava satisfeita e não sabia o motivo. Havia, também, outra coisa que aborrecia a Lua: ela era muito vaidosa e gostava de se enfeitar, de se pintar. O Sol não se cuidava muito .

 

Tanto o Sol insistiu com a Lua para que lhe contasse o motivo de sua tristeza, que, um dia, a Lua, pondo de lado o orgulho, contou o que se passava:

 

- Você deveria ser mais vaidoso e mais exigente! Queria que se enfeitasse mais, que escolhesse suas amizades com mais cuidado e também os seus passeios! - Por que? Gosto de ser simples, de conviver com todos, de ir a qualquer lugar!

 

- Mas não está certo! Assim, não ficarei contente. Quero que meu namorado seja mais importante do que os outros! O Sol ficou muito triste. Como gostava da Lua, pôs-se a pensar no que ela havia dito. Começou a evitar os amigos, indo pescar, caçar e nadar sozinho, com ares de importante.

 

Começou a ficar vaidoso, também. Enfeitava-se com as mais lindas penas. A Lua, por sua vez, vendo que o Sol estava ficando mais enfeitado do que ela, tratou logo de conseguir coisas mais valiosas. E pedia ao pai: - Papai, vou a uma festa e não quero usar os meus enfeites velhos! Quero que o senhor consiga para mim as penas mais bonitas que possam existir! - O que está acontecendo? Você foi sempre vaidosa, é verdade. Mas agora! Não faz mais nada senão enfeitar-se! E eu, então, vivo procurando penas, dentes, nem sei o que mais! Sempre que a Lua lhe pedia mais enfeites, ele queria saber o motivo de tanta vaidade. Tanto insistiu, que ela acabou contando. Ele ficou louco da vida. Então, por causa do Sol, ele, que já não era muito moço, andava pela selva que nem um condenado, procurando enfeites para a filha! Bufou, xingou, praguejou e continuou a fazer a vontade da Lua. Não podia, porém, ver mais o Sol. Estava com uma raiva louca daquele rapaz que só sabia enfeitar-se. Certo dia, o pai da Lua estava perto de um rio, caçando pássaros para conseguir penas, pois logo haveria uma grande festa. O Sol devia ir e andava procurando, da mesma forma, conseguir penas bonitas. Embora o pai da Lua estivesse com raiva do moço, os dois continuaram com a amizade. - O senhor também está caçando? perguntou o Sol, assim que se avistaram. - Sim, respondeu o índio, meio carrancudo. Vai haver uma grande festa e minha filha quer ir bem enfeitada.

 

- É verdade. Também vou. É por causa disso que estou aqui. Quero conseguir penas bonitas para fazer belos enfeites. - Aproveitando a ocasião, você poderia também conseguir penas e outros enfeites para a Lua, não é mesmo? Afinal, não seria mais do que a sua obrigação. Já não sou tão novo para andar atrás dessas coisas. - Realmente, mas a culpa não é minha. Ela não aceita nenhum presente meu! É muito orgulhosa e diz que a obrigação é do senhor!

 

Continuaram caçando por ali. É claro que o Sol, sendo mais moço, levava vantagem, acertando sempre as mais bonitas. Aí surgiu no céu, voando devagar, majestosamente, uma ave muito bonita. Devia ter vindo de longe, pois eles a conheciam. - Olhe! - gritou o Sol. Veja que ave maravilhosa! - Não a conheço! - exclamou o outro. - Vai ver que Tupã a enviou para que eu me enfeite com as suas penas.

 

- Se Tupã a enviou, foi para minha filha ser a mais linda da festa! A ave desceu e pousou numa árvore muito alta. Agora, eles podiam ver melhor suas cores. Eram lindas. Todas as cores do arco-íris estavam ali representadas. Os dois ficaram de boca aberta, tão distraídos, que se esqueceram de caça-la. O Sol gritou: - Preciso pegá-la! Tem de ser minha! - Eu vou pegá-la! - desafiou o pai da Lua. Cada um preparou depressa o arco e a flecha e apontaram para a pobre ave distraída e tranqüila. De repente, ela voou, ganhando altura.

 

- Lá vai ela! - gritou o Sol. - Vai fugir! - exclamou o pai da Lua, desesperado. Atiraram as flechas. O Sol, embora fosse melhor atirador do que o velho, por qualquer motivo, errou. Sua flecha passou longe. A flecha do outro acertou em cheio. Porém a ave, como já estava a grande altitude, foi cair do outro lado do rio. Quando viu que havia errado, o Sol ficou louco da vida. Deu um chute numa pedra e urrou de dor. O velho, ao contrário, ficou muito contente, pulando de alegria. - Eu não disse que Tupã havia enviado a ave para a minha filha? - falou.

 

- Então não foi Tupã, sendo eu teria acertado! - E você se julga melhor do que eu? - gritou o pai da Lua, mostrando que n&aatilde;o estava para brincadeira. O Sol, que era esperto, percebeu que podia criar inimizade com o velho, o que, é lógico, não seria interessante. Assim, procurou acalmá-lo: - Eu não quis dizer isso! Bem, vou buscar a ave para o senhor. - Nada disso! Se minha filha não quer favores seus, eu também não quero. Eu mesmo vou buscá-la. - Mas é preciso atravessar o rio e não temos nenhuma canoa aqui! Tem de ser a nado!

 

- O que você pretende dizer com isso? Então, não sei nadar? O velho era teimoso e não quis saber de nada. Pulou na água e foi nadando. No meio do rio é que a coisa aconteceu. Não agüentou e começou a se afogar. O Sol saltou na água e nadou rapidamente na direção do pai da Lua. O velho já estava nas últimas. O Sol chegou bem a tempo, colocou-o a salvo na margem e foi buscar a ave. - Eis a sua ave! - disse o Sol. - Minha, não! Sua! - exclamou o velho. - Como assim? - admirou-se o Sol.

 

O velho olhou para ele, ficou uns instantes em silêncio e depois, destacando bem as sílabas, como se o outro fosse meio surdo, disse: - A ave é sua e não minha. Sabe por que? Ficou mais um pouco em silêncio e explicou: - Se você me salvou a vida e ainda foi buscar a ave, tem mais direito a ela do que eu! - De jeito nenhum! Não posso aceitar! Fique com ela! Os dois permaneceram naquilo um bom tempo. Aí, o velho teve uma idéia, mas não a revelou ao Sol. - Está certo. Levarei a ave. Vamos! - disse.

 

Quando chegaram à aldeia, o velho propôs dividir as penas entre o Sol e a Lua. O Sol ficou horrorizado. Nunca! A Lua ficou brava como uma onça. O que? Usar as penas da mesma ave? Nem sonhando! O Sol que ficasse com a ave inteira! Ele não aceitou, nem a Lua, e a ave foi jogada num canto da oca. O Sol foi embora, zangado. Ao saber que o namorado salvara seu pai, a Lua ficou ainda mais aborrecida. Não tinha dúvida de que o Sol ia ficar mais vaidoso do que nunca. Quando toda a aldeia soube do caso, prestou as maiores homenagens ao herói. Só se falava no Sol.

 

A Lua, para se acalmar, foi dar uma volta pela redondeza. Ao passar perto de um abismo, cuja profundidade ninguém sabia, ouviu uns gritos que vinham lá de dentro. Olhou cuidadosamente para ver o que era. Logo abaixo, agarrada a umas pedras, estava a mãe do Sol, já no fim de suas forças. Tinha-se distraído e caíra no abismo. O que fazer? Se fosse até à aldeia, não voltaria a tempo de salvar a velha índia. Rapidamente, a Lua apanhou um cipó, amarrou-o a uma árvore ali perto e, agarrando-se ao cipó, desceu até as pedras. Arriscando a vida, conseguiu amarrar a mulher pela cintura. Subiu e começou a puxar a mãe do Sol. Não teria agüentado aquele peso, mas, sentindo-se perto da salvação, a mulher agarrou-se com unhas e dentes nas saliências do abismo e ajudou a Lua a salvá-la.

 

Na aldeia, o Sol estava entre uma roda de rapazes, contando como salvara o pai da Lua. A mãe dele, então, chegou e contou o que havia acontecido. Logo, a Lua começou a ser homenageada e, com todo o orgulho possível, ela disse ao Sol: - Agora estamos iguais, não estamos? Continuaram a namorar, porém a disputa era maior do que antes. Um não sabia o que fazer para se destacar mais do que o outro. A Lua e sua família andavam tão preocupadas, que nem se lembraram da ave largada num canto da oca. Ficou ali uma porção de tempo, sem que ninguém percebesse.

 

A tal festa muito importante ia realizar-se na aldeia. Grandes preparativos estavam sendo feitos, muita bebida e muita comida. O pai da Lua estava às voltas com novos enfeites e o Sol também andava pela selva com a mesma intenção. Mais tarde, a Lua recebeu os seus enfeites e preparou-se o melhor que pôde. Quando o Sol chegou, ela estava muito bonita. Ele, muito distinto e elegante, atraía olhares. - Como os seus enfeites são lindos! - ele disse. A Lua ficou toda orgulhosa, mas ele completou: - Só que os meus são muito mais! - Os seus? Ah, ah, ah! - caçoou a Lua, olhando para o Sol com cara de compaixão.

 

O pai dela, muito aflito, vendo a discussão que já se formava, andava de um lado para outro, sem saber o que fazer. E os dois vaidosos falavam, nenhum querendo perder. O velho, ansioso para acabar com aquilo, andava e olhava por todos os cantos. Acabou encontrando a ave, um pouco escondida por uns cestos: - Olhem! Aquela ave que nós caçamos! Ainda está aqui! A Lua olhou, horrorizada: - Como é que pôde ficar esquecida?

 

O Sol aproveitou par fazer um comentário maldoso: - Aquela ave? Não acredito! Então, Lua? Não é só a vaidade pessoal que tem valor, a oca também merece um pouco de cuidado! Há muito tempo que você não faz uma limpeza por aqui, hein? - Calma, calma! - pedia o velho, arrependido da sua descoberta, segurando a ave pelos pés. Eles estavam discutindo, quando a ave criou vida. O pai da Lua, vendo-a mexer-se, deu um grito que atraiu todos os índios da aldeia. Ouviu-se um estrondo e se formou uma fumaceira que não deixava ver nada. Quando voltaram a enxergar, no lugar da ave estava Tupã em pessoa. Não havia índio que não tremesse!

 

Imponente, impressionante, olhou para os dois jovens e disse: - Vocês são muito vaidosos e orgulhosos. Não é possível o que estão fazendo. Só se preocupam em ser notados! Só desejam riquezas! As penas da ave que enviei eram mágicas! Se tivessem sido repartidas entre os dois, vocês teriam deixado de ser assim. Mas a vaidade venceu. Pois vão ser ricos e adorados por todos. Você, Sol, será transformado num rei adornado de ouro. E você, Lua, será transformada numa rainha coberta de prata. Imediatamente, Tupã e os dois moços sumiram. E, a partir daquele momento, o Sol e a Lua começaram seu passeio pelo céu.

 

Lenda do Pirarucu

 


O pirarucu é um peixe da Amazônia, cujo comprimento pode chegar até 2 metros. Suas escamas são grandes e rígidas o suficiente para serem usadas como lixas de unha, ou como artesanato ou simplesmente vendidas como souvenir.

 

A carne do Pirarucu é suave e usada em pratos típicos da nossa região.Pode também ser preparada de outras maneiras, freqüentemente salgada e exposta ao sol para secar. Se fresca ou seca, a carne do pirarucu é sempre uma delícia em qualquer receita.Pirarucu era um índio que pertencia a tribo dos Uaiás que habitava as planícies de Lábrea no sudoeste da Amazônia.

 

Ele era um bravo guerreiro mas tinha um coração perverso, mesmo sendo filho de Pindarô, um homem de bom coração e também chefe da tribo. Pirarucu era cheio de vaidades,egoísmo e excessivamente orgulhoso de seu poder. Um dia, enquanto seu pai fazia uma visita amigável a tribos vizinhas, Pirarucu se aproveitou da ocasião para tomar como refém índios da aldeia e executá-los sem nenhuma motivo. Pirarucu também adorava criticar os deuses. Tupã, o deus dos deuses, observou Pirarucu por um longo tempo, até que cansado daquele comportamento,decidiu punir Pirarucu.

 

Tupã chamou Polo e ordenou que ele espalhasse seu mais poderoso relâmpago na área inteira. Ele também chamou Iururaruaçú, a deusa das torrentes, e ordenou que ela provocasse as mais fortes torrentes de chuva sobre Pirarucu, que estava pescando com outros índios as margens do rio Tocantins, não muito longe da aldeia. O fogo de Tupã foi visto por toda a floresta. Quando Pirarucu percebeu as ondas furiosas do rio e ouviu a voz enraivecida de Tupã, ele somente as ignorou com uma risada e palavras de desprezo. Então Tupã enviou Xandoré, o demônio que odeia os homens, para atirar relâmpagos e trovões sobre Pirarucu, enchendo o ar de luz.

 

Pirarucu tentou escapar, mas enquanto ele corria por entre os galhos das árvores, um relâmpago fulminante enviado por Xandoré acertou o coração do guerreiro que mesmo assim ainda se recusou a pedir perdão. Todos aqueles que se encontravam com Pirarucu correram para a selva terrivelmente assustados, enquanto o corpo de Pirarucu, ainda vivo, foi levado para as profundezas do rio Tocantins e transformado em um gigante e escuro peixe. Pirarucu desapareceu nas águas e nunca mais retornou, mas por um longo tempo foi o terror da região.

 

Boitatá

 


Há registro de que a primeira versão da história foi feita pelo padre José de Anchieta, que o denominou com o termo tupi Mbaetatá - coisa de fogo. A idéia era de uma luz que se movimentava no espaço, daí, "Veio a imagem da marcha ondulada da serpente ". Foi essa imagem que se consagrou na imaginação popular Descrevem o Boitatá como uma serpente com olhos que parecem dois faróis, couro transparente, que cintila nas noites em que aparece deslizando nas campinas, nas beiras dos rios. Em Santa Catarina, a figura aparece da seguinte maneira: um touro de "pata como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo".

 

A versão que predominou foi a do Rio Grande do Sul. Nessa região, narra a lenda que houve um período de noite sem fim nas matas. Além da escuridão, houve uma enorme enchente causada por chuvas torrenciais. Assustados, os animais correram para um ponto mais elevado afim de se protegerem. A boiguaçu, uma cobra que vivia numa gruta escura, acorda com a inundação e, faminta, decide sair em busca de alimento, com a vantagem de ser o único bicho acostumado a enxergar na escuridão. Decide comer a parte que mais lhe apetecia, os olhos dos animais. E de tanto comê-los vai ficando toda luminosa, cheia de luz de todos esses olhos.

 

O seu corpo transforma-se em ajuntadas pupilas rutilantes, bola de chamas, clarão vivo, boitatá, cobra de fogo. Ao mesmo tempo a alimentação fruga! deixa a boiguaçu muito fraca. Ela morre e reaparece nas matas serpenteando luminosa. Quem encontra esse ser fantástico nas campinas pode ficar cego, morrer e até enlouquecer. Assim, para evitar o desastre os homens acreditam que têm que ficar parados, sem respirar e de olhos bem fechados.

 

A tentativa de escapulir apresenta riscos porque o ente pode imaginar fuga de alguém que ateou fogo nas matas. No Rio Grande do Sul, acredita-se que o "boitatá" é o protetor das inatas e das campinas. A verdade é que a idéia de uma cobra luminosa, protetora de campinas e dos campos aparece freqüentemente na literatura, sobretudo nas narrativas do Rio Grande do Sul.

 

Vitória Régia

 


Descrição: Os pajés tupis-guaranis, contavam que, no começo do mundo, toda vez que a Lua se escondia no horizonte, parecendo descer por trás das serras, ia viver com suas virgens prediletas.

 

Diziam ainda que se a Lua gostava de uma jovem, a transformava em estrela do Céu. Naiá, filha de um chefe e princesa da tribo, ficou impressionada com a história. Então, à noite, quando todos dormiam e a Lua andava pelo céu, Ela querendo ser transformada em estrela, subia as colinas e perseguia a Lua na esperança que esta a visse.

 

E assim fazia todas as noites, durante muito tempo. Mas a Lua parecia não notá-la e dava para ouvir seus soluços de tristeza ao longe. Em uma noite, a índia viu, nas águas límpidas de um lago, a figura da lua.

 

A pobre moça, imaginando que a lua havia chegado para buscá-la, se atirou nas águas profundas do lago e nunca mais foi vista. A lua, quis recompensar o sacrifício da bela jovem, e resolveu transformá-la em uma estrela diferente, daquelas que brilham no céu. Transformou-a então numa "Estrela das Águas", que é a planta Vitória Régia. Assim, nasceu uma planta cujas flores perfumadas e brancas só abrem à noite, e ao nascer do sol ficam rosadas. Origem: Indígena. Para eles assim nasceu a vitória-régia.

 

Lendas da Mandioca

 


Entre os indígenas parecis do Mato Grosso conta-se a lenda da origem da mandioca. Zatiamare e sua mulher, Kôkôtêrô, tiveram um casal de filhos: um menino, Zôkôôiê e uma menina, Atiôlô. O pai amava o filho e desprezava a filha. Se ela o chamava, ele só respondia por meio de assobios; nunca lhe dirigia a palavra. Desgostosa, Atiôlô pediu a sua mãe que a enterrasse viva, visto como assim seria útil aos seus. Depois de longa resistência ao estranho desejo, Kôkôtêrô acabou cedendo aos rogos da filha e a enterrou no meio do cerrado. Porém ali não pôde resistir por causa do calor, e rogou que a levassem para o campo, onde também não se sentiu bem.

 

Mais uma vez suplicou a Kôkôtêrô que a mudasse para outra cova, esta última aberta na mata, aí sentiu-se à vontade. Pediu, então, à sua mãe que se retirasse, recomendando-lhe que não volvesse os olhos quando ela gritasse. Depois de muito tempo gritou. Kôkôtêrô voltou-se rapidamente. Viu, no lugar em enterrara a filha, um arbusto mui alto, que logo se tornou rasteiro assim que se aproximou. Tratou da sepultura. Limpou o solo. A plantinha foi-se mostrando cada vez mais viçosa. Mais tarde, Kôkôtêrô arrancou do solo a raiz da planta: era a mandioca (Clemente Brandenburger, Lendas dos Nossos Índios, 34-35).

 

Numa lenda dos bacairis, o veado salvou o peixe bagadu (Practocephalus) e este presenteou-o com mudas da mandioca que possuía no fundo do rio. O veado plantou e comia sozinho com a família. Keri, o herói dos bacairis, conseguiu tomar a mandioca e dividiu-a entre as mulheres indígenas (Karl von den Steinem, Entre os Aborígenes do Brasil Central, 487-488).

 

A cultura da mandioca fixou o indígena nas áreas geográficas de sua produção e possibilitou a colonização do Brasil pela adaptação do estrangeiro a essa alimentação. As lendas mostram a etiologia sagrada, nascida de corpo humano em sacrifício consciente. Ver Mani, Região Norte.

 

Diabinho da Garrafa

 


Também conhecido como Famaliá, Cramulhão,Capeta da Garrafa, entre outros nomes,este ser é fruto de um pacto que as pessoas afirmam que se pode fazer com o diabo,este pacto consiste na maioria das vezes de uma troca, a pessoa pede riqueza em troca dá a alma ao diabo.

 

Após feito o pacto a pessoa tem que conseguir um ovo que dele nascerá um diabinho de 15cm à aproximadamente 20cm, más não se trata de um simples ovo de galinha, e sim um ovo especial,fecundado pelo próprio diabo.

 

CARACTERÍSTICAS:

 

Segundo muitos o Diabinho da Garrafa tem as seguintes características:

 

1.Nasce de um ovo(em algumas Regiões do Brasil acredita-se que ele pode nascer de uma galinha fecundada pelo diabo),noutras Regiões acreditam que ele nasce de um ovo colocado não por galinha e sim por um galo, este ovo seria do tamanho de um ovo de codorna.

 

2.Para conseguir tal ovo, a pessoa deve procurá-lo durante o período da quaresma , e na primeira sexta feira após conseguir o ovo, a pessoa vai até uma encruzilhada ,00:00h meia noite ,com o ovo debaixo do braço esquerdo,após passar o horário retorna para casa e deita-se na cama.No fim de 40 dias aproximadamente , o ovo é chocado e nascerá o diabinho.

 

3. Com o diabinho , a pessoa coloca-o logo na garrafa e fecha, bem fechado, com o passar dos anos o diabinho enriquece o seu dono, e no final da vida leva a pessoa para o inferno.

 

Sapucaia-Roca

 


Sapucaia-Roca é uma pequena povoação à margem do rio Madeira. Pouco abaixo do lugar em que acha assentada, referem os índios que existiu outrora uma outra povoação, muito maior do que esta, e que um dia desapareceu da superfície da terra, sepultando-se nas profundidades do rio.

 

É que os Muras, que então a habitavam, levavam a vida desordenada e má, e nas festas, que em honra de Tupana celebravam, entregavam-se a danças tão lascivas e cantavam cantigas tão impuras, que faziam chorar de dor aos angaturamas, que eram os espíritos protetores, que por eles velavam.

 

Por vezes os velhos e inspirados pajés, sabedores dos segredos de Tupana, haviam-nos advertido de que tremendo castigo os ameaçava, se não rompessem com a prática de tão criminosas abominações. Mas cegos e surdos, os Muras não os viam, nem os ouviam. E pois um dia, em meio das festas e das danças e quando mais quente fervia a orgia, tremeu de súbito a terra e na voragem das águas, que se erguiam, desapareceu a povoação.

 

As altas barrancas que ainda hoje ali se vêem, atestam a profundidade do abismo em que foi arrojada a povoação e os réprobos... Depois, muitos anos depois, foi que começou a surgir a atual povoação, que ainda não pode atingir ao grau de esplendor da fora submergida. Foram de novo habitá-la os Muras; mas em breve, por entre a escuridão da noite começaram a ouvir, transidos de medo, como o cantar sonoro de galos, que incessante se erguia do fundo das águas.

 

Consultando os pajés, que perscrutavam os segredos do destino, declaram estes que aquele cantar de galos, ouvido em horas mortas da noite, provinha daqueles mesmos angaturamas, que deploraram outrora a misérrima sorte da povoação submergida e que, sempre protetores dos filhos dos Muras, serviam-se do canto despertador dos galos da Sapucaia-Roca submergida, para recordarem o tremendo castigo por que passaram seus maiores e desviarem a nova geração do perigo de sorte igual. É este o fato que deu origem ao nome da povoação: Sapucaia-Roca.

 

Onça Boi

 


Muito comum na Região Norte do Brasil, também conhecida como Onça Pé de Boi, é uma lenda sobre um animal fantástico que muitos pescadores , caçadores e mateiros que se aventuram pelas florestas juram já ter visto.

 

Segundo os populares suas características são:

 

1.É uma Onça Pintada com uma anomalia de ter quatro patas como as de um boi.

 

2.A Onça-Boi anda sempre aos pares um macho e uma fêmea ,isto dificulta muito alguém escapar, pois se encurralarem a pessoa em algum lugar , elas são capazes de reservar a vigilância do local em quanto uma se alimenta ou dorme.

 

3.A única maneira de matar este animal é ao avistá-lo matar primeiramente o macho, assim a fêmea ficará desnorteada e será fácil fugir ou mesmo matá-la.

 

Iara ou Mãe D'água

 


Iara é um ser , metade peixe metade mulher que vive nos rios ,esta Lenda é muito comum na região Amazônica. Segundo pesquisadores esta lenda surgiu entre os índios e passou a fazer parte principalmente das vidas das populações ribeirinhas,onde muitas dessas pessoas são descendentes de índios, ou estão muito próximos da cultura indígena, passando a serem influenciadas direta ou indiretamente.

 

Segundo a Lenda as pessoas ,principalmente homens, sempre eram atraídos pela beleza irresistível da Iara,uma linda índia com cabelos longos pretos ,corpo muito bonito e com uma música mágica leva as pessoas para o fundo das águas, onde existe o seu reino. Iara alem de possuir um belo canto também contava com a sua beleza,podendo ao sair da água assumir a forma humana de uma mulher.

 

Lenda da Lua

 


lenda indígena conta sobre a origem da lua. Manduka namorava sua irmã. Todas as noites ia deitar com ela, mas não mostrava o rosto e nem falava, para não ser identificado. A irmã, tentando descobrir quem era, passou tinta de jenipapo no rosto de Manduka. Manduka lavou o rosto porém a marca da tinta não saiu. Então ela descobriu quem era. Ficou com vergonha, muito brava e chorou muito. Manduka também ficou com vergonha pois todos passaram a saber o que ele havia feito.

 

Então Manduka subiu numa árvore que ia até o céu. Depois desceu e foi dizer aos Jurunas que ia voltar pra árvore e não desceria nunca mais. Levou uma cotia pra não se sentir muito só. Aí virou lua. E é por isso que a lua tem manchas escuras, por causa do jenipapo que a irmã passou em Manduka. No meio da lua costuma aparecer uma cotia comendo coco. É a outra mancha que a lua tem.

 

Mani

 


Em tempos idos, apareceu grávida a filha dum chefe selvagem, que residia nas imediações do lugar em que está a cidade de Santarém, Pará. O chefe quis punir no autor da desonra de sua filha a ofensa que sofrera seu orgulho e, para saber quem ele era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos a moça permaneceu inflexível, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum.

 

O chefe tinha deliberado matá-la, quando lhe apareceu em sonho um homem branco, que lhe disse que não matasse a moça, porque ela efetivamente era inocente, e não tinha tido relação com homem. Passados os nove meses, ela deu à luz uma menina lindíssima e branca, causando este último fato a surpresa não só da tribo como das nações vizinhas, que vieram visitar a criança, para ver aquela nova e desconhecida raça.

 

A criança, que teve o nome de Mani e que andava e falava precocemente, morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido e sem dar mostras de dor. Foi ela enterrada dentro da própria casa, descobrindo-se e regando-se diariamente a sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo, brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu e deu frutos.

 

Os pássaros que comeram os frutos se embriagaram, e este fenômeno, desconhecido dos índios, aumentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se, cavaram-na e julgaram reconhecer, no fruto que encontraram, o corpo de Mani. Comeram-no e assim aprenderam a usar a mandioca. (134-135, O Selvagem). Ver Lendas da Mandioca, Região Centro-Oeste.

 

Mani - Menina de cujo corpo nasceu a mandioca, Manihot utilissima Pohl., euforbiácea, base da alimentação brasileira. O nome mandioca proviria de Mani-óca, casa de Mani. É lenda da raça tupi. A lenda de Mani foi registrada por Couto de Magalhães em 1876.

 

Capelobo

 


Lenda muito comum na Região dos Rios do Pará e também no Maranhão. O nome Capelobo é uma fusão com um nome de significado possivelmente indígena, onde Capê(osso quebrado,torto ou aleijado) + Lobo .

 

Características

 

O Capelobo pode aparecer com duas formas distintas:

 

Forma de animal:

 

Aparece como uma anta, porém com características mais distintas, é maior que uma anta comum,é mais veloz, apresenta um focinho mais parecido com o de um cão ou porco, e longos cabelos.

 

Forma Humana:

 

Aparece com o corpo metade homem , com focinho de tamanduá,e corpo arredondado.

 

Costuma sair a noite , rondando as casas e acampamentos que ficam dentro das florestas, costuma apanhar cães e gatos recém nascidos,mas quando captura um animal maior ou um homem ,ele quebra o crânio e come o cérebro , ou bebe o sangue.Só é morto com um ferimento no umbigo.

 


 

ONÇA MANETA

 


São poucos os registros que mencionam a existência da onça-maneta, embora esta lenda esteja presente principalmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Trata-se, como o próprio nome dá a entender, de uma onça que não se sabe como perdeu parte de uma das suas patas dianteiras, e a partir daí passou a perambular por seu território de caça deixando marcados nas areias os rastros das outras três patas que lhe sobraram.

 

Segundo a voz do povo ela é de uma ferocidade extrema, dona de força incrível e extremamente ágil, apesar da deficiência física que apresenta. Vivendo permanentemente esfomeada, a onça-maneta por isso mesmo ataca os rebanhos bovinos e os currais que vai encontrando por onde passa, desaparecendo assim que percebe o esboço de qualquer reação humana. Mas ela reaparece pouco tempo depois, quase sempre no mesmo local ou em suas proximidades, dando prosseguimento à sua continuada busca de alimento capaz de lhe satisfazer o enorme apetite.

 

Os poucos onceiros que afirmam tê-la conhecido mais de perto, garantem que a fera é desassombrada, não tem medo de coisa alguma, e por isso mesmo enfrenta com valentia e obstinação os cães e caçadores que a perseguem. Segundo esses relatos, a pata da onça foi gravemente ferida ou até mesmo decepada durante um confronto com alguns homens que a perseguiam, mas tendo conseguido escapar, mesmo caminhando com extrema dificuldade, ela, daí em diante, passou a viver dominada pela fúria, atacando as pessoas, seus animais domésticos e suas fazendas, como que movida exclusivamente pelo propósito de vingar-se do mal que lhe haviam feito.

 

Temida e respeitada nas áreas onde é conhecida, a onça-maneta, segundo as poucas descrições que existem sobre ela, não sofre qualquer tipo de transformação em sua aparência natural, ou seja, não se transforma em ave, em outro animal, em pedra ou adquire a aparência de alguma coisa animada ou inanimada que lhe possa servir de disfarce diante de necessidade ou interesse de momento. Ela permanece sempre como uma onça de três patas, e provavelmente suas pretensas aventuras são simplesmente deformadas para mais em virtude do medo que inspira às pessoas, ou pela má fama que a acompanha.

 

Sobre ela, Luiz da Câmara Cascudo, em “Geografia dos Mitos Brasileiros”, diz que de seu conhecimento “apenas um escritor (Veiga Miranda, em “Mau Olhado”, 1925) alude à ‘Onça Maneta’. Cita simplesmente, sem detalhes, acidentalmente. Entretanto, ela é senhora de grande área de prestígio e deixa o rastro de suas três patas nas areias de dois estados brasileiros (São Paulo e Minas Gerais). Não a fazem gigantesca, nem com faculdades de metamorfose imediata em árvores, pedra ou um outro animal ou ave. A Onça Maneta se mantém onça e suas aventuras são deformadas pelo medo e pela fama”.

 

O jornal Tribuna do Norte, da cidade paulista de Pindamonhangaba, publicou em 15/04/2005 uma interessante matéria sobre esse animal lendário. O texto principia da seguinte forma “Contava-nos o seu Lacerda, do Arquivo Municipal, que nos tempos do desbravamento um sertanista pindense, conhecido por capitão, seguindo o rastro de uma pintada lá pelas bandas do rio Piracuama, acabou descobrindo uma passagem para os sertões de Minas: a ‘Passagem do Piracuama”. Como forma de gratidão ele passou a proteger o tal felino, não permitindo que atirassem no bicho.

 

Infelizmente aconteceu de um aventureiro, que estava de passagem rumo às Minas Gerais, divisar com a pintada. Assustado com o tamanho da onça, ele mandou chumbo pra cima dela. A carga arrancou-lhe de uma das patas dianteiras, mas ainda assim ela desapareceu mata adentro. Depois disso ninguém mais soube do paradeiro da tal pintada. Uns diziam que ela tinha morrido em sua toca nos contrafortes da Mantiqueira. Outros, que sua carcaça apodrecera nas águas do Piracuama”.

 

E termina assim: “Muito depois, quando já nem se falava mais da onça da Mantiqueira, começou a correr a notícia de que uma pintada enorme e furiosa vagava pela região entre o Pico Agudo e a Serra Preta. Às vezes, ela era vista até nas cercanias de Campos do Jordão. Uns sertanistas que haviam dado com ela calculavam que o animal tivesse dez palmos da ponta do focinho até a cauda, e uns quatro palmos de altura.

 

Seu pêlo era fulvo, revelando que se tratava de animal velho. Havia, no entanto, uma particularidade que a diferenciava de outras onças: não tinha uma das patas dianteiras, era uma onça maneta! Nas noites de lua cheia a fera urrava nas quebradas da Mantiqueira, amedrontando o povo das montanhas. Eram poucas as pessoas que tinham coragem de passar nos locais onde ela aparecia. Diziam uns que ela era o fantasma daquela onça da ‘Passagem do Piracuama’, que, há muito anos, um caçador tinha deixado sem uma das patas.

 

Outros falavam que era o espírito da tal que, em noites de lua cheia, se apossava do corpo de outra onça maneta e saía atacando homens e animais. A onça da Mantiqueira ainda foi muito comentada até os meados do século XX. Lenda ou fato, o ‘seu’ Lacerda contava-nos que pesquisando certa vez antigos documentos no Arquivo do Estado, havia deparado com algumas notas referentes a uma enorme onça pintada, aleijada da pata dianteira, que vagava pelas encostas e altiplanos da Mantiqueira”.

 

Fonte Especial da lenda Onça maneta: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=518773

 

Mãe D'Água ou Iara

 

 


Os cronistas dos séculos XVI e XVII registraram essa história. No princípio, o personagem era masculino e chamava-se Ipupiara, homem peixe que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio. No século XVIII, Ipupiara vira a sedutora sereia Uiara ou Iara.

 

Todo pescador brasileiro, de água doce ou salgada, conta histórias de moços que cederam aos encantos da bela Uiara e terminaram afogados de paixão. Ela deixa sua casa no fundo das águas no fim da tarde. Surge magnífica à flor das àguas: metade mulher, metade peixe, cabelos longos enfeitados de flores vermelhas. Por vezes, ela assume a forma humana e sai em busca de vítimas.

 

Quando a Mãe das águas canta, hipnotiza os pescadores. Um deles foi o índio Tapuia. Certa vez, pescando, Ele viu a deusa, linda, surgir das águas. Resistiu. Não saiu da canoa, remou rápido até a margem e foi se esconder na aldeia. Mas enfeitiçado pelos olhos e ouvidos não conseguia esquecer a voz de Uiara.

 

Numa tarde, quase morto de saudade, fugiu da aldeia e remou na sua canoa rio abaixo. Uiara já o esperava cantando a música das núpcias. Tapuia se jogou no rio e sumiu num mergulho, carregado pelas mãos da noiva. Uns dizem que naquela noite houve festa no chão das águas e que foram felizes para sempre. Outros dizem que na semana seguinte a insaciável Uiara voltou para levar outra vítima. Origem: Européia com versões dos Indígenas, da Amazônia.

 

Mula-Sem-Cabeça

 


Ente sobrenatural muito comum no Brasil. Em alguns lugares do país, é também conhecida como ''Burrinha'', ''mula-do-padre'', ou ''Cavalo-sem-Cabeça''. É muito comum, principalmente, nos Estados de Goiás e Mato-Grosso, sendo um dos mitos mais controvertidos do folclore brasileiro. Segundo dizem, todas as mulheres que forem amantes de um padre, se transformarão em mula-sem-cabeça. Trata-se de um animal forte, bravio, sem cabeça, que possui fortes patas, calçadas com ferraduras que podem ser de aço ou prata.

 

Seu relincho é tão estridente que pode ser ouvido bem distante, algumas vezes geme como um ser humano e solta fogo pelo pescoço. Coitado daquele que atravessar no seu caminho! A mula-sem-cabeça costuma aparecer na meia noite da quinta-feira para sexta-feira. Se alguém for bastante corajoso para lhe arrancar o cabresto, conseguirá quebrar o encanto. Ou então, se algum valente conseguir picá-la com um alfinete, e se sangrar, a encantada perde o seu encantamento.

 

Matina Perêra

 


Características:

 

1.A Matinta Perêra é uma velha vestida de preto, com os cabelos caídos no rosto .

 

2.Costuma sair durante a noites, principalmente em noites sem lua.

 

3. É através de um assobio bem forte que ela costuma atrair alguma pessoa.

 

4. A Matinta Perêra pode aparecer de diversas formas, de animais ,mas transformando-se quase sempre em coruja.

 

5. Segundo muitas pessoas para se descobrir quem é a Matinta Perêra , basta que a pessoa que ouvir o seu assobio convide-a para vir à sua casa pela manhã para tomar café. Na manhã seguinte a primeira pessoa que chegar pedindo café ou tabaco é a Matinta Perêra.

 

6.Acredita-se que a Matinta Perêra possui poderes sobrenaturais. Seus feitiços são capazes de causar sérios prejuízos às suas pessoas, principalmente com respeito à saúde, causando-lhes fortes dores físicas e até a morte.

 

Lobisomem

 


Quando é noite de sexta-feira, à meia noite, ele procura uma encruzilhada, atira-se no chão e começa a rolar na poeira. Logo se transforma em Lobisomem. O Lobisomem é o sétimo filho homem de um casal: o caçula. É fácil se saber quem é o Lobisomem: o predestinado costuma ser amarelo e muito magro.

 

Como ele precisa de sangue, depois que se transforma em Lobisomem anda à procura de algum leitãozinho, cachorro novo, e até crianças de colo. E em último caso, ataca mesmo gente grande. Antes de amanhecer, o Lobisomem sempre procura um cemitério e lá consegue voltar a forma humana. Se nesta hora alguém conseguir fazer um ferimento nele com um espinho especial, ele não se transformará em bicho.

 

É noite de quinta para sexta-feira. Uma chuva fina cai sobre a cidade deserta e um vento forte sopra sobre suas ruas. Um homem caminha depressa pelas ruas mal-iluminadas. Ao ouvir um estranho ruído, apressa ainda mais o passo. Porém, sente que está sendo observado. Completamente apavorado, começa a correr. Na esquina vê um vulto escuro. Sentindo que está prestes a se tornar sua vítima, grita por socorro. Mas de nada adianta.

 

Desesperado, cai de joelhos ao chão e com os olhos cheios de lágrima vê a criatura atacar. Com uma dentada no pescoço, o Lobisomem suga seu sangue. Seu corpo fica inerte no chão. Meio bicho, meio gente, a besta sai em disparada para atacar outras possíveis vítimas. Quando o galo começa a cantar, o Lobisomem retoma a sua condição anterior: volta a ser homem, cansado e com os cotovelos cobertos de sangue. Isolado, fica aguardando a próxima oportunidade em que voltará a atacar suas vítimas.

 

A cobra-grande ou Boiúna ou Cobra Honorato

 


Descrição: É uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico. Conta a lenda que em numa tribo indígena da Amazônia, uma índia, grávida da Boiúna (Cobra-grande, Sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas que na verdade eram Cobras. Um menino, que recebeu o nome de Honorato ou Nonato, e uma menina, chamada de Maria. Para ficar livre dos filhos, a mãe jogou as duas crianças no rio. Lá no rio eles, como Cobras, se criaram. Honorato era Bom, mas sua irmã era muito perversa. Prejudicava os outros animais e também às pessoas.

 

Eram tantas as maldades praticadas por ela que Honorato acabou por matá-la para pôr fim às suas perversidades. Honorato, em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e adquiria a forma humana transformando-se em um belo rapaz, deixando as águas para levar uma vida normal na terra.

 

Para que se quebrasse o encanto de Honorato era preciso que alguém tivesse muita coragem para derramar leite na boca da enorme cobra, e fazer um ferimento na cabeça até sair sangue. Ninguém tinha coragem de enfrentar o enorme monstro. Até que um dia um soldado de Cametá (município do Pará) conseguiu libertar Honorato da maldição. Ele deixou de ser cobra d'água para viver na terra com sua família. Origem: Mito da região Norte do Brasil, Pará e Amazonas.

 

Cuca- A origem do Sol

 

"Durma nenê/senão a Cuca vem aí, papai foi a roça/mamãe logo vem"

 


Muitos brasileiros ouviram de suas mães ou de suas babás canções que falavam da Cuca. Em Minas Gerais chamam Coca. Cuca ou Coca, ainda Ticuca, como é conhecida em Pernambuco, trata-se do ente que faz parte das assombrações infantis e que aparece em todas as regiões do Brasil. É o nosso fantasma. E o nosso papão feminino que aparece à noite para amedrontar e carregar no saco as crianças que insistem em permanecer acordadas, fazendo estripulias.

 

A maneira que descrevem-na variai embora predomine mais a idéia de alguma coisa que a própria criança possa imaginar para assombrá-la. Em Pernambuco, por exemplo, aparece com algumas características da clássica ilustração da bruxa nos contos infantis: magra, velha enrugada, corcunda, sempre à espreita de crianças que desobedecem os pais na hora de ir para cama. Faltam-lhe, no entanto, a vestimenta preta, o chapéu pontiagudo e a vassoura.

 

Cuca: outra definição/ Origem do Sol ou Cuca

 


Para os índios o sol era gente e se chamava KUANDÚ. Kuandú tinha três filhos: um é o sol que aparece na seca; o outro, mais novo, sai na chuva e o filho do meio ajuda os outros dois quando estão cansados.

 

Há muito tempo um índio Juruna teria comido o pai de KUANDÚ.Por isso este queria se vingar. Uma vez Kuandú estava bravo e foi para o mato pegar coco. Lá encontrou Juruna em uma palmeira inajá. Kuandú disse que ele ia morrer, mas Juruna foi mais rápido acertando Kuandú com um cacho na cabeça. Aí tudo escureceu. As crianças começaram a morrer de fome porque Juruna não podia trabalhar na roça e nem pescar. Estava tudo escuro.

 

A mulher de Kuandú mandou o filho sair de casa e ficou claro de novo. Mas só um pouco porque era muito quente para ele. O filho não agüentou e voltou para casa. Escureceu de novo. E assim ficaram os 3 filhos de Kuandú. Entrando e saindo de casa. Portanto, quando é seca e sol forte é o filho mais velho que está fora de casa. Quando é sol mais fraco é o filho mais novo. O filho do meio só aparece quando os irmãos ficam cansados.

 

Origem do Guaraná

 

 


Um Curumim (criança) da Tribo dos Maué ,que estava em guerra ,foi morta pelo espírito mal o Jurupaí que ao se disfarçar de Cobra Cascavel picou o menino e o matou. Toda a tribo entristeceu muito e pediram a Tupã (o Deus Supremo) que ressuscitasse o menino.Então Tupã determinou que os olhos do menino fossem retirados e plantados como se fossem sementes de uma planta, pois ali ele disse que nasceria uma bela planta que chamou-a de Planta da Vida que traria mais força para os jovens e mais disposição as idosos.

 

os Pajés da Tribo fizeram o que foi mandado,durante quatro luas(quatro meses) os índios guardavam o local e choravam sobre ele. Até que um dia brotou uma planta que como um menino começou a subir em tudo que estava pela sua frente ,subia em árvores e ia se espalhando, até frutificar, frutos negros envoltos numa polpa branca embutida em duas cápsulas vermelhas assemelhando-se muito a um olho humano.

 

Bicho-papão

 

 


O bicho-papão é uma figura fictícia mundialmente conhecida. É uma das maneiras mais tradicionais que os pais ou responsáveis utilizam para colocar medo em uma criança, no sentido de associar esse monstro fictício à contradição ou desobediência da criança em relação à ordem ou conselho do adulto.

 

Desde a época das Cruzadas, a imagem de um ser abominável já era utilizada para gerar medo nas crianças. Os muçulmanos projetavam esta figura no rei Ricardo, Coração de Leão, afirmando que caso as crianças não se comportassem da forma esperada, seriam levadas escravas pelo melek-ric (bicho-papão): “Porta-te bem senão o melek-ric vem buscar-te”.

 

A imagem do bicho-papão possui variações de acordo com a região. No Brasil e em Portugal, é utilizado o termo “bicho-papão”. Nos Países Baixos, o monstro leva o nome de Zwart Piet (Pedro negro), que possui a tarefa de pegar as crianças malvadas ou desobedientes e jogá-las no Mar Negro ou levá-las para a Espanha. Em Luxemburgo, o bicho-papão (Housecker) é um indivíduo que coloca as crianças no saco e fica batendo em suas nádegas com uma pequena vara de madeira.

 

Segundo a tradição popular, o bicho-papão se esconde no quarto das crianças mal educadas, nos armários, nas gavetas e debaixo da cama para assustá-las no meio da noite. Outro tipo de bicho-papão surge nas noites sem luar e coloca as crianças mentirosas em um saco pra fazer sabão. Quando uma criança faz algo errado, ela deve pedir desculpas, caso contrário, segundo a lenda, receberá uma visita do monstro.

 

Origem do Peixe-Boi

 


Lenda de origem indigena, habitantes do vale do Rio Solimões, no Amazonas, a lenda conta que foi realizada uma grande festa da moça nova e pela ação de Curumi. O pajé mandou que a moça nova e o Curumi mergulhassem nas águas do rio. Quando mergulharam o pajé jogou, em cima de cada um deles, uma tala de canarana. Quando voltaram à tona já haviam se transformado em PEIXE-BOI. A partir deste casal nasceram todos os outros peixes-boi. É por esse motivo que eles se alimentam de canarana.

 

Boto

 


Lenda muito comum na Região Norte do Brasil, consiste num encantamento que os Botos possuem, este encantamento faz com que nas primeiras horas da Noite, principalmente em dias de Festas, os Botos se transformam em Rapazes Altos, Fortes, muito bonito e bem vestidos. Sempre a procura de festas e de muita mulher bonita para namorar. Chegando na festa eles dançam, bebem, paqueram, se comportam como um rapaz normal, e antes do dia nascer eles retornam para os Rios, pois o seu encantamento só dura a noite e voltam a ser botos novamente.

 

Mapinguari

 


O Mapinguari é uma Lenda derivada de algumas lendas dos Índios da Região Amazônica. Segundo esta Lenda, alguns índios ao atingirem uma idade mais avançada evoluiriam e se transformariam em Mapinguari e passariam a habitar o interior da Florestas passando a viver apenas no seu interior e sozinhos.

 

Características:

 


O Mapinguari é um ser muito alto apresenta aproximadamente altura entre 1,80m à 2,00m, muito forte, sua pele do corpo é igual a do Jacaré, porém muito mais resistente o que lhe dá uma grande proteção, as mãos grandes, pés grandes e grandes dentes. Entes Fantásticos: Norte

 


Amao
Andorinha
Aru
Baíra
Bicho do Mato
Bicho Visagento
Boiúna
Bolaro
Caapora / Caipora
Caamanha / Mãe-do-Mato
Caruanas
Caruara / Caroara
Cavalo-Marinho
Cobra-Grande
Cobra-Maria
Companheiro do Fundo Cumacanga
Iapinari
Juriti-Pepena
Jurupari
Macunaima
Mãe-da-Lua
Mãe-da-Peste
Mãe-da-Seringueira
Mãe-do-Fogo
Mãe-do-Mato
Mapinguari
Matinta pereira
Matuiú
Motucu
Onça Pé de Boi
Visagem

 

Amao

 


Personagem divina que ensinou aos indígenas camanaos, do rio Negro, Amazonas, o processo de fazer beiju, farinha de mandioca, farinha de tapioca e várias outras coisas. Depois desapareceu para sempre.

 

Brandão de Amorim (Lendas em Nheengatu e Português, 289) ouviu a lenda em nheengatu: “No princípio do mundo, contam, apareceu entre outras criaturas uma moça bonita. Não sabia de homem, seu nome era Amao. Uma tarde Amao foi para a beira do rio, aí sentou-se. No mesmo momento passou por junto dela porção de peixe, a pele deles, contam, brilhava de verdade. Ela meteu a mão no rio, pegou um peixe. O peixe fez-se forte na mão dela, pulou direto na sua concha, furou-a, depois tornou a saltar para o rio. Desde aí sua barrinha foi crescendo, quando chegou madureza de sua lua, ela teve um menino.

 

A criança já tinha duas luas, quando a mãe dele foi pescar de puçá peixinho na cabeça da correnteza. O menino ela deixou deitado em cima da pedra. Já era meio-dia, Amao saiu, foi ver o menino, encontrou-o já morto. Carregou seu corpo que foi, chorou durante a noite; quando o sol apareceu, o menino falou deste modo: Minha mãe, repara como os animais e pássaros estão rindo de nós. Eles mesmos me espantaram para eu morrer. Agora, para eles não escarnecerem de ti, defuma-os com resina para virarem pedra. Assim somente ele falou.

 

Já com a tarde, Amao enterrou seu filho, à meia-noite virou pedra todos os animais. De manhã, contam, cururu, cujubim, pássaro-pajé, lontra, estavam já de pedra. Cobra-grande, raia, taiaçu, tapir somente não viraram de pedra porque foram comer para a cabeceira. Amao voou logo para a cabeceira, passou em cima duma pedra grande, aí encontrou taiaçu e tapir dormindo. Amao surrou primeiro no tapir, depois surrou no taiaçu, morreram ambos.

 

Depois retalhou o tapir, o taiaçu, jogou carne deles no rio, deixou somente uma coxa de tapir, outra do taiaçu em cima da pedra; aí as virou pedra. Como cobra-grande e raia ainda estavam comendo no fundo d’água, ela fez um laço na beira do rio para agarrá-las. Já noite grande ouviu uma coisa batendo no laço, foi ver, encontrou a cobra-grande com a raia. Jogou nelas com resina, viraram de pedra imediatamente. Depois voltou para ensinar todos os trabalhos à gente da terra dela. Sentou um forno, mostrou como a gente faz beiju, farinha, farinha de tapioca, porção de coisas. Depois de ensinar tudo, Amao sumiu-se desta terra, ninguém sabe para onde!”

 

Andorinha

 


Entre os indígenas caxinauás, de raça pano, no Acre, há uma lenda da txunô, andorinha, conhecida literalmente em todo o Brasil. “Um menino, ba-kö, divertia-se na roça, perseguindo uma andorinha e conseguiu agarrá-la. A txunô disse que não a matasse que ela o levaria para o céu onde viviam todos os antepassados do menino. O ba-kö aceitou, e a andorinha mandou-o segurar-se às suas penas e subiu. Entrou para o céu, encontrando o irmão de seu pai, sobrinhos, amigos.

 

Contou sua história a um tio e este lhe mostrou legumes, casas bonitas e o chão coberto de areia branca e fina. Lá de cima vêem tudo. O tio do menino fez comida e o ba-kö comeu e satisfez-se. E ficou vivendo no céu. (Resumo, 4801-4850, J. Capistrano de Abreu, Rã-Txa hu-ni-ku-î, Rio de Janeiro, 1941).

 

Aru

 


Casta de pequeno sapo, que vive de preferência nas clareiras do mato e acode, numeroso, logo que se abre um roçado. Onde aru não aparece a roça não medra. Aru transforma-se oportunamente em moço bonito, empunha o remo e vai buscar a mãe da mandioca, que mora nas cabeceiras do rio, para que venha visitar as roças e as faça prosperar com o seu benéfico olhar. Somente as roças bem plantadas e que agradam à mãe da mandioca prosperam e tem chuva oportunamente. Aru foge das que não são conservadas bem limpas, e que são invadidas das ervas daninhas, e quando desce com a mãe da mandioca lhes passa a frente sem parar. (Stradelli, Vocabulário). Brandão de Amorim (Lendas, 293) colheu em São Gabriel, Rio Negro, creio que entre os indígenas aruacos, embora narrada no idioma nheengatu, a lenda de Aru, chefe indígena, novo, forte, insaciável de prazer sexual. Aru encontrou, pescando na ilha da Palha, uma moça maravilhosamente bonita e estuprou-a.

 

A moça que era Seusi, filha da lua e mãe das plantas, abortou imediatamente um pequenino sapo, chato e feio, que matou e com o sangue pintou o tuxaua e lhe presenteou com uma membi (flauta), feita com fios do seu cabelo. Aru voltou para a aldeia, tocando a membi encantada, e seus companheiros, apavorados de ouvir o canto da lontra (irara, mustélidas, Tayra barbara) tão perto do povoado, fugiram, precipitando-se no rio Negro. O tuxaua acompanhou-os, pulando também. Quando voltaram à tona d’água, “todos eles eram já cururu, para ficarem sendo neste mundo arus-cururus.”

 

Baíra

 


Ou Bairi, a entidade civilizadora dos indígenas parintintins ou cauaiuas do rio Madeira, no Amazonas, de raça tupi. Suas aventuras têm um sabor de malícia e de zombaria, lembrando o Macunaima dos taulipangues e o Poronominare dos barés. Ensinou aos parintintins a caça com visgo, a pesca com sangab (outro peixe fingido e posto nágua para atrair o bando), furtou o fogo ao urubu e mandou-o aos seus indígenas, por intermédio do sapo, que se tornou um pajé poderoso, o flechar de jirau ou de escada, os adornos com dentes de onça, etc. (Nunes Pereira, Bahira e suas Experiências, Manaus, Amazonas, 1945, segunda edição).

 

Bicho do Mato

 


Rei ou governador das caças, é um caboclo grande e cinzento, que não permite que se mate bicho novo, nem que esteja amamentando; interdita a caçada às fêmeas, e, se isso acontecer, é preciso um voto propiciatório: levar um beiju e deixá-lo no mato para o bicho, do contrário o caçador será sempre infeliz. Noutras regiões do norte brasileiro e para a população mestiça, o Pai do Mato, um gigante benéfico, com atributos jurisdicionais do Curupira ou da Caipora.

 

Bicho Visagento

 


“Entidade sobrenatural, nome genérico para todos os sobrenaturais da mata ou da água. Amazonas. Visagento é o que produz ou determina o fenômeno da visagem Ver Visagem.

 

Boiúna

 


Mboi, cobra, una, preta, o mais popular dos mitos amazônicos. Alfredo da Mata (Vocabulário Amazonense): “Cobra escura, a Mãe-d’água, de tanto destaque no folclore amazonense por transformar-se em as mais disparatadas figuras: navios, vapores, canoas... Ela engole pessoas. Tal é o rebojo e cachoeiras que faz, quando atravessa o rio, e o ruído produzido, que tanto recorda o efeito da hélice de um vapor. Os olhos fora d’água semelham-se a dois grandes archotes, a desnortear até o navegante. Os acontecimentos os mais inverossímeis são atribuídos à Boiúna.” Ver Cobra-Grande e Cobra-Maria.

 

Bolaro

 


Trata-se de um espírito que os tucanos, em conversa com estranhos, chamam de Curupira. Caracterizam-se como indivíduo de pés virados para trás, que vagueia de preferência pelos igarapés em que se escondem os instrumentos de Jurupari, defendendo a estes da curiosidade feminina e infantil; chupa o cérebro de suas vítimas. Ver Capelobo, Região Nordeste.

 

Caapora / Caipora

 


É o Curupira tendo os pés normais. De caá, mato, e pora, habitante, morador. O padre João Daniel, missionário no Amazonas, 1780-97, informa sobre a significação primitiva do vocábulo: “Do que se infere que o diabo disfarçado de figura humana, Coropira, tem muita comunicação com os irmãos mansos e já aldeados; e muito mais com os bravos, a que chamam Caaporas, isto é, habitantes do mato”.

 

(“Tesouro Descoberto no Rio Amazonas”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, II, 482). O Curupira é um caapora, residindo no interior das matas, nos troncos das velhas árvores. De defensor de árvores passou a protetor da caça, talqualmente sucedeu à Diana greco-romana. Discute-se a existência do Caapora quinhentista, contemporâneo do Curupira, e não simples fusão posterior. Frei André Thevet (em inédito citado por Métraux, La Religion, 63) informa o pavor dos indígenas a um “esprit que les assiège durant la nuit”, chamado Agnan, Raa-Onan ou Kaa-Gerre. Jean de Léri denomina-o Kaegerre.

 

Gonçalves Dias (Brasil e Oceânia, 106) traduz facilmente Kaa, mato, e Gerre, ou Guerre, corrutela de Guara, habitante, morador. O mesmo que pora, Kaagerre é informe e ameaçador como o Curupira de Anchieta. Os indígenas defendiam-se andando com um tição flamejante durante as jornadas noturnas. Esses fantasmas da noite fogem da claridade que os homens dominam. Negros e orientais viajam com fogos, amedrontando os bichos fabulosos que povoam as horas escuras. É um mito tupi-guarani, emigrando do Sul para o Norte. Couto de Magalhães fixou-o como um grande homem coberto de pêlos negros por todo o corpo e cara, montado sempre num porco de dimensões exageradas. Émile Allain cita esse “géant velu monté sur un énorme porc sauvage”.

 

Ambrosetti, estudando o Caapora da Argentina, faz coincidir o desenho: “es un hombre velludo, gigantesco, de gran cabeza, que vive en los montes, comiendo crudos los animales que el hombre mata y luego no encuentra”. (Supersticiones, 87). Em qualquer direção, pelo interior do Brasil, o Caapora-Caipora é um pequeno indígena, escuro, ágil, nu ou usando tanga, fumando cachimbo, doido pela cachaça e pelo fumo, reinando sobre todos os animais e fazendo pactos com os caçadores, matando-os quando descobrem o segredo ou batem número maior das peças combinadas.

 

O Caipora pequeno e popular é o velho Curupira, sem a influência platina que Couto de Magalhães aceitou, e possivelmente representa o Caapora inicial, o selvagem apenas, agigantado pelo medo que espalhava no mistério da floresta. O próprio Couto de Magalhães, querendo escrever em nheengatu gigante morador do mato, grafou Caapora-assu. Se o Caapora fosse um gigante, dispensaria o sufixo açu, aumentativo. Por todo o nordeste do Brasil duas imagens verbais pintam o duende: fumar como o Caipora e assobiar como o Caipora. Dizem, nessa região, comumente o Caipora fazendo-o sempre uma indiazinha, amiga do contato humano, mas ciumenta e feroz quando traída. Quem a encontra fica infeliz nos negócios e tudo quanto empreender.

 

Do Maranhão para o sul o Caipora é o tapuia escuro e rápido. No Ceará, além do tipo comum, aparece com a cabeleira hirta, olhos de brasa, cavalgando o porco, caititu, e agitando um galho de japecanga (Smilax). Engana os caçadores que não lhe trazem fumo e cachaça, surra impiedosamente os cachorros. Em Pernambuco (Barbosa Rodrigues) apresenta-se com um pé só, e este mesmo redondo, como o pé-de-garrafa, e o segue o cachorro Papa-Mel. Na Bahia é uma cabocla quase negra ou um negro velho, e também um negrinho em que só se vê uma banda (Silva Campos), lembrando os Ma-Tébélés africanos (Blaise Cendrars) ou os Nisnas clássicos, evocados por Gustave Flaubert na Tentação de Santo Antão.

 

Em Sergipe, quando não o satisfazem, mata o viajante a cócegas. No Extremo Sul reaparece o homem agigantado. No Rio Grande do Sul (J. Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, 89, Pelotas, 1913). No Paraná é também um gigante peludo. Em Minas Gerais e Bahia, ao longo do rio São Francisco, é um “caboclinho encantado, habitando as selvas”, com o rosto redondo, um olho no meio na testa (Manuel Ambrósio). Por onde emigra, o nordestino vai semeando suas figuras e crenças. O Caipora, ou a Caipora, popularizadíssimo em sertão, agreste e praia, vai alargando a área geográfica do domínio.

 

No Chile há o Anchimallén, anão guia e protetor dos animais, ligando-se aos mitos ígneos, porque se pode transformar em fogo-fátuo. O Anchimallén entra em acordo com caçadores, mas exige sangue humano nos contratos. Dá igualmente infelicidade e anuncia a morte. Há várias semelhanças com o Yastay argentino, guiando as manadas de guanacos e vicunhas, defendendo-as da dizimação ou deixando-as matar se o caçador lhe oferece coca e farinha de chaclión (farinha de milho). O mesmo sucede nas regiões da erva-mate com a Coamanha, mãe-da-erva, apaixonando-se, auxiliando, enriquecendo o namorado, mas perseguindo e vingando bestialmente seu amor abandonado.

 

O Caipora, com o contato do focinho do porco, da vara de ferrão, do galho de japecanga ou da ordem verbal imperativa, ressuscita os animais mortos sem sua permissão, apavorando os caçadores. Não conheço nem creio que exista ligação do mito do Caipora com o Batatão, o Boitatá ígneo.

 

Bibliografia: Couto de Magalhães, O Selvagem, 137; Gonçalves Dias, Brasil e Oceânia, 105; Beaurepaire Rohan, Dicionário de Vocábulos Brasileiros; Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, no estudo do “Kurupira”; Manuel Ambrósio, Brasil Interior, 71; Cornélio Pires, Conversas ao Pé do Fogo, 154; Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, com registro de depoimento de caçadores contemporâneos.

 

Donald Pierson, Brancos e Pretos na Bahia, 324-325, São Paulo, 1945, encontrou a versão que “o caipora pode ser afastado mastigando-se alho”, e registra um episódio que é variante do Mapinguari, em Silva Campos, LXXVI: “O Caipora existe mesmo. Assim como um soco no braço da gente deixa sinal vermelho, o Caipora também deixa sinais. Conheço um imigrante português, homem honrado e digno de fé, que foi avisado para não caçar às sextas-feiras. Ele riu-se do aviso e foi ao mato procurar jacus: achou um e atirou. O jacu voou para ele com as garras estendidas e arranhou-o cruelmente.

 

Ele atirou outra vez. O jacu voltou e arrancou-lhe os olhos. Então ele ouviu uma voz dizer: “Você sabe que não deve caçar nas sextas-feiras”. Era o Caipora. O homem voltou cambaleando para casa e caiu sem sentidos na porta. Conheci bem esse homem”. Essa interdição da caça nas sextas-feiras, como na estória do Mapinguari do rio Purus, referente aos domingos, identifica a influência católica da catequese. Ver Curupira, Região Norte e Ossonhe, Região Nordeste.

 

Caamanha / Mãe-do-Mato

 


Ente fantástico que se supõe habitar a mata e que parece ser o próprio Curupira (Stradelli, 386, Vocabulário Nheengatu). Ver Mãe-do-Mato.

 

Caruanas

 


“Gênios que vivem no fundo dos rios e são chamadas auxiliar os pajés nas suas práticas fetichistas. Bichos do fundo. Chermont deriva de caru-ana tupi, sem explicar a significação. Parece-nos que a terminação ana seja contração de anga-ang-an-ana, espírito e caru uma aliteração de catu, bom. As Caruanas são tidas, ou são tidos os caruanas, como espíritos benfazejos. Os pajés os invocam para curar os pacientes, livrá-los de embaraços, de feitiços, etc.”

 

Eduardo Galvão, que realizou uma interessante pesquisa religiosa no Amazonas, encontrou o vocábulo caruanis e não mais caruanas. Caruana não provirá de cariua, sábio poderoso, senhor de segredos, feiticeiro, mágico (Montoya, Baptista Caetano, Stradelli) e o sufixo ramo, rama, rana, namo, valendo semelhante, parecido, igual? Daria, hipotéticamente, cariuarama, cariuana, caruana. Ver Companheiro do Fundo.

 

Caruara / Caroara

 


Duende invisível, bicho fantástico amazônico. “Um bicho que inspira muito medo, é o que descreve, à semelhança do bicho-de-pau que aparece nos quintais e capoeiras.

 

Chamam de caruara. Como os outros, possui também mãe. É extremamente perigoso para as mulheres menstruadas, que, nessa condição, evitam andar pelo quintal ou atravessar as trilhas que dão nas roças ou nos caminhos para apanhar água. O cheiro da mulher nesse estado, afirma-se, que atrai a caroara, ou a mãe do caroara, que flecha a vítima. Os efeitos dessas flechadas são semelhantes aos do reumatismo. Aparecem dores, inchação dos membros e dificuldade de articulação. Em Itá, existem muitas mulheres com esses sintomas, e cuja doença é atribuída às flechadas de caroara.

 

Aos homens, esses bichos não parecem fazer qualquer mal.” No norte do Brasil, é uma moléstia que ataca o gado, trazendo-lhe inchação e paralisia nas pernas e corrimentos. Com o mesmo nome se conhece uma espécie de formiga, que dá nas árvores, cuja mordedura coça como sarna, e também uma qualidade de abelha, cujo mel é nocivo. A cidade de Caruaru, em Pernambuco, significa caruar-ú, aguada das caruaras, água que produzia a moléstia no gado.

 

Cavalo-Marinho

 


Animal encantado que vive no mar ou nos rios. De origem oriental, o cavalo-marinho, de resplandecente alvura, crinas e caudas de fios dourado, aparece nos contos tradicionais e nos episódios narrados como pessoais. Ocorre nas Mil e uma Noites (primeira viagem de Simbad) e há vários registros seus no Brasil. O Cônego Francisco Bernardino de Sousa (Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas, 93, Pará, 1873) registra uma versão antiga, referente a uma olha denominada Cavalo-Marinho, no rio Uaicurupá, município de Vila-Bela-da-Imperatriz (hoje Parintins): “É crença geral entre os índios, e que se foi transmitindo também à gente civilizada que por ali habita, que no cimo da colina existe um lago, que é habitado por um grande peixe, que tem as formas de um cavalo. Daí, pois, o nome de ilha do Cavalo-Marinho.

 

Sendo ela toda de terra firme, isto é, não sujeita às inundações, de belo aspecto e de terreno próprio para a lavoura, é, entretanto, tal o terror que incute o fantástico monstro que ninguém ousou ainda explorar a ilha, achando-se ela completamente deserta. No verão, e quando as praias mostram-se descobertas, encontram-se em diferentes pontos uns resíduos, nos quais notam-se ossos, cabelos, escamas, penas, etc. Dizem os índios que são as fezes lançadas pelo peixe misterioso.” Quem encontrar o Cavalo-Marinho ficará rico com os cabelos das crinas e caudas, todos de ouro puro e reluzente. Hipocampo: Monstro fabuloso, metade cavalo, metade peixe.

 

Cobra-Grande

 


O mito mais poderoso e complexo das águas amazônicas. Mágica, irresistível, polifórmica, aterradora. “A Cobra-Grande, tem a princípio, a forma de uma sucuriju ou uma jibóia comum. Com o tempo adquire grande volume e abandona a floresta para ir para o rio. Os sulcos que deixa à sua passagem, transformam-se em igarapés.

 

Habitam a parte mais funda do rio, os poções, aparecendo vez por outra na superfície. Durante nossa estadia em Itá, houve ocasiões em que nenhum pescador atreveu-se a sair para o rio à noite, pois em duas ocasiões seguidas foi avistada uma Cobra-Grande... pelos olhos que alumiavam como tochas. Foram perseguidos até a praia, somente escapando porque o corpo muito grande encalhou na areia. Esses pescadores ficaram doentes do pânico e medo da experiência que relatavam com real emoção.” (Eduardo Galvão, Santos e Visagens, 98-99, Brasiliana, 284, S. Paulo, 1955). Eduardo Galvão confirma a Cobra-Grande tornar-se navio encantado. Misabel Pedrosa disse-me que a Cobra-Grande mora debaixo do cemitério do Pacoval, na ilha de Marajó (1964). Ver Boiúna e Cobra-Maria.

 

Cobra-Maria

 


Animal fabuloso do rio Solimões, Amazonas, cobra gigantesca, com poderes mágicos. É uma variante local de Cobra-Grande, a Mboia-Açu. É uma tapuia encantada em uma cobra. Vejamos: a filha de um pajé deitou-se levar pelo amor de um emigrante, concebendo dois filhos gêmeos: José e Maria. Quando o velho pajé soube do caso, calou-se e, quando as crianças nasceram, matou a filha e atirou-as na água, morrendo José; Maria foi protegida da Iara e hoje faz tudo quanto quer; é muita coisa na água. Aparece sempre à noite.

 

Os seus olhos são como os de Anhangá, duas tochas de fogo. Não tem ouvido falar numa cobra enorme, que derruba barrancos, afunda canoas, encalha navios e tem feito muitos valentes agonizar de fraqueza? Pois é a Cobra-Maria ( Quintino Cunha, Pelos Solimões, 322, Paris, sem data). Ver Boiúna e Cobra-Grande.

 

Companheiro do Fundo

 


“Entre os sobrenaturais que se acredita habitar o fundo dos rios e dos igarapés ou dos poções, estão os companheiros do fundo, também chamados caruanis. Habitam um reino encantado, espécie de mundo submerso. O reino é descrito à semelhança de uma cidade, com ruas e casa, mas onde tudo brilha como se revestido de ouro. Os habitantes desse reino do fundo dos rios têm semelhança com criaturas humanas; sua pele é muito alva e os cabelos louros.

 

Alimentam-se de uma comida especial que, se provada pelos habitantes deste mundo, os transforma em encantados que jamais retornam do reino. Os companheiros do fundo agem como espíritos familiares dos pajés ou curadores. A concepção desses companheiros é algo de vago para o leigo. Alguns acreditam que sejam botos, considerados extremamente malignos. Outros distinguem entre companheiros e botos, classificando estes últimos em uma categoria especial de seres encantados. Uma ou outra concepção lhes atribui realidade, existência. No primeiro caso, as criaturas tomam a forma de boto, mas, no fundo, têm a semelhança de humanos. Ver Caruanas.

 

Cumacanga

 


O lobisomem, cuja cabeça se solta do corpo, e que denominam Cumacanga, é sempre a concubina de um padre, ou a sétima filha do seu amor sacrílego. O corpo fica em casa e a cabeça, sozinha, sai, durante a noite de sexta-feira, e voa pelos ares como um globo de fogo.

 

Curacanga:

 


“Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira Curacanga, isto é, a cabeça lhe sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de evitar-se esse hórrido fadário: é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita.”

 

A Cumacanga é do Pará e a Curacanga, idêntica, é do Maranhão. A cabeça luminosa é um elemento comum aos mitos do fogo, punição, encanto, indicação de ouro ou contos etiológicos. Os indígenas caxinauás, panos do Estado do Acre, explicam a origem da Lua como uma cabeça que subiu ao céu.

 

Iapinari

 


Filho de mulher virgem, Iapinari nasceu cego e recobrou a visão, esfregando o sumo dos olhos do cancão (Cianocorax cyanoleucus). Era grande tocador de membi, tornando-se famoso. Ficaria cego, se a mãe descobrisse a outra pessoa o segredo que lhe dera a luz dos olhos. Apaixonada por um moço, a mãe de Iapinari contou o segredo, e o filho voltou a cegar, precipitando-se no rio, onde se tornou um rochedo. A mãe, moças e rapazes da tribo que seguiram Iapinari, também ficaram encantados. Lenda do rio Uaupés, rio Negro, Amazonas. A pedra Iapinari fica entre as cachoeiras de Tucunaré e Uaracapuri.

 

Juriti-Pepena

 


Superstição do Pará, em que se crê na vinda de uma juriti invisível que canta numa touceira de tajás. Os pios lamentosos da ave misteriosa anunciam desgraças, que serão evitadas por um feiticeiro, pajé, mestre, que saiba rezar, afastando o presságio. Se não for evitada a profecia da juriti-pepena, a vítima ficará aleijada.

 

Jurupari

 


O demônio, o espírito mau, segundo todos os dicionários e os missionários, exceção feita do Padre Tastevin. “A palavra jurupari parece corrutela de jurupoari”, escreve Couto de Magalhães em nota (16) da segunda parte do Selvagem, que ao pé da letra traduziríamos - boca mão sobre: tirar da boca. Montoia (Tesoro) traz esta frase: - che jurupoari - tirou-me a palavra da boca.>

 

O Dr. Batista Caetano traduz a palavra: “Ser que vem à nossa rede, isto é, ao lugar onde dormimos.” Seja ou não corruta a palavra, qualquer das duas traduções está conforme a tradição indígena e, no fundo, exprime a mesma idéia supersticiosa dos selvagens, segundo a qual este ente sobrenatural visita os homens em sonhos e causa aflições tanto maiores quanto trazendo-lhes a faculdade da voz.

 

Esta concepção que poderá ser a que criaram as amas-de-leite, amalgamando as superstições indígenas com as de além-mar, tanto vindas da África como da Europa, não é a do nosso indígena. Para ele Jurupari é o legislador, o filho da virgem sem cópula, pela virtude do sumo da cucura do mato, e que veio mandado pelo Sol para reformar os costumes da terra, a fim de poder encontrar nela uma mulher perfeita, com o que o Sol possa casar. Jurupari, conforme contam, ainda não encontrou, e embora ninguém saiba onde, continua a procurá-la, e só voltará ao céu quando a tiver encontrado.

 

Jurupari é, pois, o antenado lendário, o legislador divinizado, que se encontra como base em todas as religiões e mitos primitivos. Quando ele apareceu, eram as mulheres que mandavam e os homens obedeciam, o que era contrário às leis do Sol. Ele tirou o poder das mãos das mulheres e o restituiu aos homens e, para que estes aprendessem a ser independentes daquelas, instituiu umas festas, em que somente os homens podem tomar parte, e uns segredos que somente podem ser conhecidos por estes. As mulheres que os surpreendem devem morrer; em obediência desta lei, morreu Ceuci a própria mãe de Jurupari.

 

Ainda assim, nem todos os homens conhecem o segredo; só o conhecem os iniciados, os que, chegados à puberdade, derem prova de saber suportar a dor, serem seguros e destemidos. Os usos, leis e preceitos ensinados por Jurupari e conservados pela tradição ainda hoje professados e escrupulosamente observados por numerosos indígenas da bacia do Amazonas, e embora tudo leve a pensar que Jurupari é um mito tupi-guarani, todavia, tenho visto praticadas suas leis por tribos das mais diversas proveniências, e em todo o caso largamente influíram e, pode-se afirmar, influem ainda em muitos lugares do nosso interior sobre usos e costumes atuais, e o não conhecê-las tem de certo produzido mais mal-entendidos, enganos e atritos do que geralmente se pensa.

 

Ao mesmo tempo, porém, tem permitido, como tenho dito mais de uma vez ocasião de observar pessoalmente, que ao lado das leis e costumes trazidos pelo cristianismo e civilização européia, subsistem ainda uns tantos usos e costumes, que embora mais ou menos conscientemente praticados, indicam quanto era forte a tradição indígena.

 

Quanto à origem do nome, aceito a explicação que dela me foi dada por um velho tapuio, a quem objetava me ter sido afirmado que o nome de Jurupari quer dizer “o gerado da fruta” - Intimãã, Iurupari céra onheên putáre o munha iané iurú pari uá. Nada disso, o nome de Jurupari quer dizer que fez o fecho da nossa boca. - Vindo, portanto, de iuru boca e pari aquela grade de talas com que se fecham os igarapés e bocas de lagos, para impedir que o peixe saia ou entre. Explicação que me satisfaz, porque de um lado caracteriza a parte mais saliente do ensinamento de Jurupari, a instituição do segredo, e do outro lado, sem esforço se presta a mesma explicação nos vários dialetos tupi-guaranis, como se pode ver em Montoia, às vezes iuru e pari e às mesmas vozes em Batista Caetano (Stradelli, Vocabulário da Língua Geral, 497-498).

 

A origem tupi-guarani do mito é discutível. Foi divulgado, à força d’armas, no rio Negro, pelos indígenas da raça aruaca, vindos do Norte. É, geograficamente, o mito mais prestigioso, com vestígios vivos em quase todas as tribos. É um deus legislador e reformador, puro, sóbrio, discursador, exigente no ritual sagrado. Jurupari-demônio é uma imagem da catequese católica do séc. XVI. D. Frederico Costa, Bispo do Amazonas, na “Pastorai” (11-4-1909), documento de informação etnográfica, não aceitou o satanismo de Jurupari, de quem expôs os oito mandamentos:

 

1º A mulher deverá conservar-se virgem até a puberdade;

 

2º Nunca deverá prostituir-se e há de ser sempre fiel a seu marido;

 

3º Após o parto da mulher, deverá o marido abster-se de todo o trabalho e de toda a comida, pelo espaço de uma lua, a fim de que a força dessa lua passe para a criança;

 

4º O chefe fraco será substituído pelo mais valente da tribo; 5º O tuxaua (chefe) poderá ter tantas mulheres quantas puder sustentar;

 

6º A mulher estéril do tuxaua será abandonada e desprezada;

 

7º O homem deverá sustentar-se com o trabalho de suas mãos;

 

8º Nunca a mulher poderá ver Jurupari a fim de castigá-la de algum dos três defeitos nela dominantes: incontinência, curiosidade e facilidade em revelar segredos”. Os indígenas não adoravam Jurupari. O bispo escreveu: “Parece também evidente que houve erro em identificar Jurupari com o demônio”(53). Nenhum demônio possuirá as exigências morais de Jurupari.

 

Stradelli estudou o mito, ouvindo indígenas e assistindo à cena do culto nos afluentes do rio Negro. O reformador instituiu nas cerimônias instrumentos musicais de sopro, especialmente uma longa trombeta de paxiúba, que um som cavernoso e profundo. As mulheres não podem, sob pena de morte, ouvir sequer esse som. Nem os instrumentos musicais, máscaras e outros apetrechos das danças de Jurupari podem ser vistos por mulher e mesmo rapaz não iniciado (Stradelli, “Legenda Dell’Jurupary,” Bolletino della Societá Geografica Italiana, terc. série, III, Luglio e segs., Roma, 1890, Em Memória de Stradelli, Manaus, 1936; Geografia dos Mitos Brasileiros, longo estudo sobre Jurupari; Renato Almeida, “Trombeta de Jurupari”, opus cit., 44-48).

 

Macunaíma

 


E não Macunaíma, entidade divina para os macuxis, acavais, arecunas, taulipangues, indígenas caraíbas, a oeste do “plateau” da serra Roraima e Alto Rio Branco, na Guiana Brasileira. A tradução da Bíblia para o idioma caraíba divulgou Macunaima como sinônimo de Deus. Makonàima Yakwarri otoupu tona poropohru; o espírito de Deus pairava sobre as águas (Gênese, 1, 2) traduzido pela “Society for Promoting Christian Knowledge”, de Londres. Criador dos animais, vegetais e humanos, Macunaima é gêmeo de Pia, vingadores de sua mãe, morta pelos tigres, filhos de Konaboáru, a Rã da Chuva, e que mora nas Plêiades (Gilberto Antolínez, Hacia el Índio y su Mundo, 170, Caracas, 1946).

 

Com o passar dos tempos e convergências de tradições orais entre as tribos, interdependência cultural decorrentes de guerras, viagens, permutas de produtos, Macunaima foi-se tornando herói, centro de um ciclo etiológico, zoológico, personagem essencial de aventuras e episódios reveladores do seu espírito inventivo, inesgotável de recursos mágicos, criando os homens de cera e depois de barro, esculpindo animais, transformando os inimigos em pedras, que ainda guardam a forma primitiva. Tornou-se um misto de astúcia, maldade instintiva e natural, de alegria zombeteira e feliz. É o herói das estórias populares contadas nos acampamentos e aldeados indígenas, fazendo rir e pensar, um pouco despido dos atributos de deus olímpico, poderoso e sisudo.

 

Theodor Koch-Grunberg, 1872-1924, reuniu a melhor e maior coleção de aventuras de Macunaima nessa fase popularesca, no Vom Roroima Zum Orinoco (Ergebnisse Einer Rise in Nordbrasilien und Venezuela in den Jahren, 1911-1913), n.º II, Berlin, 1917. Algumas dessas estórias foram traduzidas pelo Dr. Clemente Brandenburger e publicadas na Revista de Arte e Ciência, n.º 9, março de 1925, Rio de Janeiro (“Lendas Índias da Guiana Brasileira”). Denominou um romance de Mário de Andrade de Macunaíma. O herói sem nenhum caráter. Rapsódia, São Paulo, 1928.

 

Mãe-da-Lua / Urutau / Jurutau (Caprimulgidae)

 


Ave noturna, seu canto melancólico e estranho, lembrando uma gargalhada de dor, cercou-a de misterioso prestígio assombrador. Está rodeada de lendas superstições, espavorindo a gente do campo, personalizando fantasmas e visagens pavorosas. Só quem haja ouvido o grito da mãe-da-lua pode medir a impressão sinistra e desesperada que ele provoca durante a noite. A jurutauí, um pouco menor, mas também chamada mãe-da-lua (Nyctibius jamaicensis), tem aplicação curiosa contra a sedução sexual. José Veríssimo registrou: “A pele da ave noctívaga jurutauí preserva as donzelas das seduções e faltas desonestas.

 

Conta-se que antigamente matavam para isso uma destas aves e tiravam a pele que, seca ao sol, servia para nela assentarem as filhas, justamente nos três primeiros dias do início da puberdade. Parece que esta posição era guardada por três dias, durante os quais as matronas da família vinham saudar a moça, aconselhando-a a ser honesta. No fim desses dias, a donzela saía curada, isto é, invulnerável à tentação das paixões desonestas, a que seu temperamento, destarte modificado pudesse atrair (Cenas da Vida Amazônica, 62, Lisboa, 1886). Veríssimo adianta que esse cerimonial fora abolido e que se limitada a varrer as penas de urutauí ou jurutauí. A guarani Nheambiú transformou-se em urutau por ter morrido seu amado Quimbae; noutra lenda (do rio Araguaia, entre os carajás) Imaeró se mudou nessa ave, porque Taina-Can (estrela-d’alva) preferiu sua irmã Denaquê para esposa.

 

Mãe-da-Peste

 


Para os indígenas todas as coisas, entidades e forças têm origem feminina, uma mãe, a Ci e é natural que as calamidades não escapem à lógica folclórica. Henry Walter Bates ainda encontrou, na cidade de Belém, em 1851, a indicação da Mãe-da-Peste, epidemia de febre amarela que invadira a região - “Algumas pessoas contaram que durante várias tardes sucessivas, antes de irromper a febre, a atmosfera era densa, e que um escuro nevoeiro, acompanhado de forte bodum (mau cheiro), ia de rua em rua. Este vapor inútil procurar dissuadi-los da convicção de que ele fosse precursor da pestilência”: O Naturalista no Rio Amazonas, 1.º, 371, S. Paulo, 1944.

 

Mãe-da-Seringueira

 


Fantasma amazônico, protetor da seringa, seringueira (Hevea brasilienses, Muell). Espécie de caapora (Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, 433): “Dizem que o Amazonas
É um lugar arriscado,
Além das feras que tem
É muito mal-assombrado;
Tem a mãe-da-seringueira,
Uma visão feiticeira
Que faz o homem azalado.
Quando se vai tirar o leite
Augura o aviso mau
Sai na frente o freguês
A cortar também o pau;
Todo leite que tirar
Não dá para um mingau!”

 

Mãe-do-Fogo

 


É o próprio fogo ou a substância imponderável que o sustenta e dirige, origem do elemento, a mãe, a ci. Nesta acepção, diz-se no idioma tuoi Tatá-manha, mãe do fogo, ou Sacu-manha, mãe do quente. É, na população mestiça, sinônimo do Batatá, Batatão, o Fogo-Fátuo (Peregrino Júnior, Histórias da Amazônia, 54, Rio de Janeiro, 1936, que a escreve “Mãe-do-Fogo”).

 

Mãe-do-Mato

 


Superstição do Pará. “Notei que, nos acampamentos feitos dentro das matas, os trabalhadores, ao se encaminharem para o serviço, desatam as redes ou desarmam as camas, com medo de que a velha Mãe-do-Mato, protetora dos animais fabulosos, venha colocar em cada leito algum graveto de madeira, como sinal que possa fazer o efeito da morfina, prostando em sono profundo o incauto que ali se deitar, predispondo-o a ser devorado por esses animais” (Ignácio Baptista de Moura, De Belém a São João do Araguaya, Rio de Janeiro, 1910). A viagem é de 1896. Ver Caamanha.

 

Mapinguari

 


É um animal fabuloso, semelhando-se ao homem, mas todo cabeludo. Os seus grandes pêlos o tornam invulnerável à bala, exceção da parte correspondente ao umbigo. Segundo a lenda, é ele um terrível inimigo do homem, a quem devora. Mas devora somente a cabeça. De um velho tuxaua, já semi-civilizado, ouvi dizer que estava o antigo rei da região (Mário Guedes, Os Seringais, 221-222, Rio de Janeiro, 1920).

 

J. da Silva Campos fixou a versão do rio Purus, Amazonas: “Um Mapinguari, aquele macacão enorme, peludo que nem um coatá, de pés de burro, virados para trás, trazia debaixo do braço o seu pobre companheiro de barraca, morto, estrangulado, gotejando sangue. O monstro, com as unhas que pareciam de uma onça, começou a arrancar pedaços do desgraçado e metia-os na boca, grande como uma solapa, rasgada à altura do estômago (Basílio de Magalhães, “Contos e Fábulas Populares na Bahia” in O Folclore no Brasil, 321-322).

 

Francisco Peres de Lima descreve o Mapinguari no Acre: “...este animal deriva-se dos índios que alcançaram uma idade avançada, transformando-se em um monstro das imensas e opulentas florestas amazônicas - ao qual dão o nome de Mapinguari. O seu tamanho é de 1,80m aproximadamente, a sua pele é igual ao casco de jacaré, os seus pés idênticos aos de uma mão de pilão ou de um ouriço de castanha” (Folclore Acreano, 103, Rio de Janeiro, s.d. [1938]). Fácil é ver o processo de convergência para o Mapinguari, gigante antropófago que vai tomando as características do Gorjala, do Pé-de-Garrafa, a invulnerabilidade, os pés invertidos do Curupira e Matuiú, etc. O Mapinguari continua assombrando pelas matas do Pará, Amazonas e Acre. No seu aspecto primitivo é idêntico ao Khoungouraissou, que o Coronel Prjévalki ouviu descrever no Han Sou, na Mongólia. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, “Ciclo dos Monstros”.

 

Matinta pereira

 


Mati, mati-taperê; nome de uma coruja, que se considera agourenta. Quando, a horas mortas da noite, ouvem cantar a mati-taperê, quem a ouve e está dentro de casa, diz logo: Matinta, amanhã podes vir buscar tabaco. “Desgraçado - deixou escrito Max. J. Roberto, profundo conhecedor das coisas indígenas - quem na manhã seguinte chega prrimeiro àquela casa, porque será ele considerado como o mati. A razão é que, segundo a crença indígena, os feiticeiros e pajés se transformam neste pássaro para se transportarem de um lugar para outro e exercer suas vinganças. Outros acreditam que o mati é uma maaiua, e então o que vai à noite gritando agoureiramente é um velho ou uma velha de uma só perna, que anda aos pulos.” (Stradelli, Vocabulário da Língua Geral, 518).

 

A Matintapereira é uma modalidade do mito do saci-pererê, na sua forma ornitomórfica. (Geografia dos Mitos Brasileiros). A matintapereira não é realmente uma coruja, como pensava Stradelli, mas um cuculida, Tapera naevia, Lin., também conhecido como Sem-fim e Saci.

 

Matuiú

 


Indígenas fabulosos que tinham os pés invertidos, com os calcanhares para frente. Primeiro a registrá-los foi o Jesuíta Cristóbal de Acuña em 1639, descendo o rio Amazonas, citando uma nação de “gente onde todos têm os pés para trás, de modo que quem não os conhecendo, quisesse seguir as suas pegadas, caminharia sempre em direção contrária à deles. Chamam-se mutayús e são tributários destes tupinambás”. (Descobrimentos do Rio das Amazonas, 263, S. Paulo, 1941).

 

O padre Simão de Vasconcelos (Crônica da Companhia de Jesus no estado do Brasil e do que Obraram seus filhos nesta Parte do Novo Mundo, lib. I, cap. 31, 20, Rio de Janeiro, 1864) divulgou-os: “Outra é de casta de gente que nasce com os pés às avessas, de maneira que quem houver de seguir seu caminho há de andar ao revés do que vão mostrando as pisadas; chamam-se matuiús.” Aulo Gélio (Noites Áticas, IX, IV), fala nos homens que andam com velocidade extrema e tendo os pés ao contrário: “alius item esse homines apud eamdem caeli plagam, singulariae velocitatis, vestigia pedum habentes retro porrecta, non, ut caeteorum hominum, prospectantia.” Santo Agostinho se refere a esses monstros no De Civitate Dei, Ib. XVI, cap. VII... “quibusdam plantas versas esse post crura.”

 

A Crônica de Nuremberg, 1492, chama-os de Opistópodos. Essa pegada inversa determinou ferraduras ao contrário para os animais enganarem os perseguidores. Nos romances do séc. XV e XVI espanhóis e franceses (do Sul), encontraram-se os cavalos ferrados como os matuiús tinham os calcâneos. No séc. XVIII o contrabandista francês Louis Mandrin possuía, para suas cavalgaduras, les fers à rebours. Ambrosetti para os caingangues e Urbino Viana para os xerentes descrevem um calçado de tecido de palha, deixando um rastro de mentira, ocultando a direção exata dos indígenas.

 

(“Los Índios Kaingángue”, 322, Revista del Jardin Zoológico, II, Buenos Aires, 1894; Urbino Viana, “Akuen ou Xerentes”, 39, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 100, vol. 155). Luís da Câmara Cascudo, Dante Alighieri e a Tradição Popular no Brasil, “Os Matuiús Dantescos”, 80-82, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1963. É o castigo dos adivinhos e mágicos, a marcha invertida, Inferno, XX, 12-13-15.

 

Motucu

 


Entidade misteriosa e malévola dos indígenas manaus, aruacos do rio Negro, Amazonas. O Motucu vive nas florestas e tem os pés virados como o curupira ou o matuiú. “Uma das principais fábulas provindas dos manaus é a do Motucu, ou demônio dos pés virados, cujas perenes jornadas faziam-se por intermináveis atalhos, incendiando floresta e deixando após si rochas estéreis.” (Pelo Rio-mar, Missões Salesianas do Amazonas, 24, Rio de Janeiro, 1933).

 

Onça Pé de Boi

 


É uma figura do folclore do Acre. “Esse animal sai do circulo dos bichos fabulosos e imaginário, porque de fato existe. No recesso daquela imensa e opulenta floresta, onde só se vêem céu e terra, longe dos lugares de vida, é a região onde se encontra a fera acima citada. Perigosíssima no seu todo, pois, além de sua ferocidade, anda somente de casal; e quando se depara com o homem, o seu maior inimigo, trata logo de aniquilá-lo. As possibilidades de vida, aí, são diminutas, a não ser que o infeliz desbravador tenha tempo de defender-se com as armas que carrega para a sua defesa, abatendo-os.

 

Mesmo que o homem consiga trepar-se numa árvore, no caso de não dispor de um rifle ou de bacamarte, é como se tivesse ele próprio lavrado a sua sentença, porque, enquanto ele tiver forças para permanecer agarrado aos galhos, esperando o momento oportuno para fugir, o casal de “onça pé de boi” não se afasta de sua presa, não deixa o tronco da árvore, vigiando atentamente a presa apetitosa. Enquanto uma sai à procura de alimentação, a outra fica esperando que o prisioneiro desça à terra. E assim demoram, até a queda do infeliz.

 

Se por acaso da sorte algum mateiro, no seu ofício de descobrir as enormes seringueiras, que formam as estradas, passa por ali, a sua atenção é logo chamada para o rastro deixado na terra mole, pelo nocivo e perigosíssimo animal, visando os seus movimentos que já são feitos cuidadosamente. Se o miserável prisioneiro ainda tem ânimo para gritar, atrai, com isso, a presença do experimentado mateiro, que já sabendo do perigo, se dirige para o local dos gritos, procurando, então, descobrir a fera, que tem as patas identicamente às de um boi gigante, afastando o seringueiro da catacumba sem cruz que aqueles ferozes animais lhe preparavam”. (Francisco Peres de Lima, Folclore Acreano, 108-109, Rio de Janeiro, s. d., 1938). Há depoimentos da onça-boi no Amazonas (Geografia dos Mitos Brasileiros, 396).

 

Visagem

 


Assombração, fantasma, alma do outro mundo, aparição sobrenatural. Cabelo assanhado como quem viu visagem. Apareceu uma visagem! Forma indecisa, causando pavor. Sentimento fingido, hipocrisia. Deixe de fazer visagem comigo. Ver Bicho Visagento.

 

 


 

 

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